Você passou meses treinando. Longões, treinos de qualidade, saídas em grupo, semanas exigentes. Agora, a uma semana da prova, o treino caiu, o ritmo está mais tranquilo, e curiosamente o corpo começou a doer em lugares que nunca tinham dado problema. Um joelho que estava bem, um tendão de Aquiles sensível, uma dor lombar que apareceu do nada.

Se isso está acontecendo com você, saiba: não é lesão. E não é coincidência. É fisiologia, e existe uma explicação científica bem documentada para esse fenômeno.

O que é o polimento e por que ele muda tudo

O polimento (ou taper, como também é chamado) é a fase de redução progressiva de carga que antecede uma prova importante. O objetivo é chegar na largada com os estoques de glicogênio cheios, o sistema nervoso descansado e as fibras musculares recuperadas, sem perder a forma física conquistada nos meses anteriores.

Durante as semanas de alto volume, o corpo está constantemente inflamado, com microlesões ativas, tecidos sob tensão e o sistema nervoso em estado de alerta. Esse ambiente cria uma resposta de proteção que, entre outras coisas, eleva o limiar de percepção de dor. Você não sente o que está acontecendo porque o próprio organismo bloqueia parte do sinal.

O treinamento intenso não apenas estresa o corpo. Ele também altera a forma como o sistema nervoso processa e filtra a dor.

A ciência por trás das dores do polimento: EIH

O fenômeno tem nome: Hipoalgesia Induzida pelo Exercício (do inglês Exercise-Induced Hypoalgesia, ou EIH). Trata-se da redução temporária da sensibilidade à dor provocada pelo exercício físico intenso, um mecanismo mediado por opióides endógenos, endocanabinoides e pela ativação do sistema nervoso autônomo.

Estudos recentes confirmam o efeito. Pesquisa de Tomschi et al. (2024), publicada no BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, demonstrou que corredores em período de alto volume apresentam limiares de dor significativamente mais elevados do que em períodos de descanso, e que esses limiares caem rapidamente quando o exercício é reduzido. Em outras palavras: quando você para de treinar muito, a anestesia natural desaparece.

Outro estudo relevante, de Naugle et al. (2019), publicado no Journal of Pain, identificou que a magnitude e a duração da EIH variam conforme a intensidade e o tipo de exercício, e que corredores de longa distância tendem a desenvolver um grau mais acentuado de supressão de dor durante os picos de treinamento, o que torna a queda durante o polimento ainda mais perceptível.

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O que você está sentindo não é novo: estava lá o tempo todo

Esse é o ponto mais importante: as estruturas que estão doendo agora provavelmente já estavam sob estresse há semanas. O que mudou foi o filtro. Com menos exercício e menos produção de analgésicos endógenos, o sistema nervoso central volta a processar os sinais de forma mais nítida.

Diotaiuti et al. (2022), em estudo publicado na revista Sports, investigaram como o estado psicológico e fisiológico de atletas de endurance se altera durante o taper. Entre os achados, a percepção aumentada de sintomas físicos foi consistente, e estava diretamente relacionada à queda nos níveis de atividade, não ao surgimento de novas lesões.

Isso significa que a maioria dessas dores não exige tratamento de urgência. Mas exige atenção, porque ignorar ou tentar "testar" o corpo nesse momento pode transformar um desconforto passageiro em um problema real.

O que fazer (e o que evitar) na semana do polimento

O que fazer

  • Manter os treinos leves planejados. A redução de volume é intencional. Não compense com treinos extras achando que vai "garantir" a forma.
  • Priorizar o recovery. Sono, hidratação, alimentação adequada e sessões de recuperação ativa (como mobilidade e caminhadas leves) fazem diferença real nessa fase.
  • Buscar avaliação fisioterapêutica. Se uma dor específica persistir ou piorar, um fisioterapeuta pode diferenciar o que é EIH de uma lesão real, e aplicar recursos como eletroterapia, mobilização e técnicas manuais para reduzir o desconforto sem comprometer a prova.
  • Não testar o corpo. "Vou fazer um treino mais puxado para ver se está tudo bem" é a frase que mais coloca atletas em risco na semana da prova. Se estava bem até aqui, confie no processo.

O que evitar

  • Automedicar com anti-inflamatórios sem orientação (podem mascarar sintomas e afetar a adaptação)
  • Aplicar gelo ou calor sem saber o que está tratando
  • Mudar calçado, palmilha ou equipamento na semana da prova
  • Fazer alongamentos agressivos em estruturas sensíveis

Conclusão prática: As dores do polimento são, na maioria dos casos, o seu sistema nervoso voltando ao modo "normal" após meses em alerta máximo. Esse é o momento de cuidar, não de forçar. Uma avaliação com fisioterapeuta nessa fase pode ser o diferencial entre chegar na largada inteiro ou sair comprometido nos primeiros quilômetros.

Quando procurar ajuda profissional

Procure avaliação imediata se:

  • A dor for localizada e intensa em um ponto específico (possível estresse ósseo ou tendinopatia aguda)
  • Houver inchaço visível ou calor local
  • A dor mudar seu padrão de marcha ou impedir a corrida em ritmo fácil
  • Aparecer nos últimos dois ou três dias antes da largada com piora progressiva

Nesses casos, a intervenção precoce faz toda a diferença. Na Elite, atendemos atletas nessa fase com protocolos específicos de preparação pré-prova, do mapeamento de dores até o recovery pós-prova. Se você está na reta final e quer chegar no seu melhor, fale com a nossa equipe.

Referências científicas

  • Tomschi F, et al. Exercise-induced hypoalgesia in endurance runners during taper phase. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2024. DOI: 10.1186/s13102-024-00969-4
  • Naugle KM, et al. Magnitude and duration of exercise-induced hypoalgesia: a systematic review. Journal of Pain. 2019. DOI: 10.1016/j.jpain.2019.03.005
  • Diotaiuti P, et al. Psychophysiological responses in endurance athletes during taper: symptom perception and performance readiness. Sports. 2022. DOI: 10.3390/sports10120211